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O blog do Fi

um português em Berlim

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Por que é tão caro ler em Portugal?

Filipe B., 05.02.25

Livros que trouxe de Londres.

O Wicked foi um presente de aniversário. Os outros 3 comprei. O do Superman é um clássico e uma preparação para o filme do James Gunn.

O The Extinction of Irena Rey não conhecia (nem à autora) mas estava numa “curated book selection " para literatura contemporânea que o staff da livraria preparou e deixou-me curioso. Daí ser tão importante ir às livrarias. O The Anxious Generation é porque quero compreender a Gen Z e não julgá-la.

Outra coisa. O preço dos livros. Por que é que em Portugal pagamos sempre mais para ler? Cada um aqui custou 9,99£ (uns 12eur). Sem descontos. É o preço base. O The Anxious Generation em Portugal custa 24,90eur! Sei que há custos de tradução envolvidos, mas não é só em Londres que vejo esta diferença. Aqui em Berlin também compro os livros sempre mais baratos e a maioria são de autores estrangeiros traduzidos.

Assim não é fácil pedir que as pessoas em Portugal leiam mais. Ou acabarão todas por comprar mais em inglês, como já está a acontecer com esta última geração de leitores que já domina o inglês como segunda língua. Uma pena.

Autores portugueses e que escrevem em português continuam a ser os meus favoritos, mas sinto que a maioria deixará de os ler se conseguir acesso mais rápido e económico a livros em inglês. Uma pena, sim, mas não posso julgar.

Uma das grandes leituras deste ano: Filhos da Chuva!

Filipe B., 07.11.24

Filhos da Chuva - Alvaro Curia.pngPrimeiro, uma confissão.

A leitura inicial deste livro não me cativou. Achei que as partes iniciais talvez precisassem de uma escrita mais limpa e ligeira, o que não significaria tirar-lhe valor. Quem está habituado a ler Afonso Cruz, Valter Hugo Mãe e companhia, sabe bem do que falo. Ainda sobre isso, não invejo o trabalho que deve ter sido essa tarefa de nos apresentar a complexidade de Domínio assim logo de repente e em poucos capítulos.

Esta leitura foi uma sugestão da minha amiga Sandra Barbosa, do programa Páginas Soltas. Apenas me disse: "Tens de ler o Filhos da Chuva de Álvaro Curia. Vais adorar". E ela conhece-me e aos meus hábitos de leitura tão bem, que a sua vaga mensagem foi suficiente para me fazer continuar. Sabia que, depois desta sugestão, algo haveria ali para mim. De resto, já seguia a página de Instagram há anos e a existência desta obra não me era estranha.

Foi por volta da página 60 e no capítulo 6, se não estou em erro, que este livro se transformou aos meus olhos. Foi nesse contar da relação meio trágica meio possessiva de Mãe e Filho que me vi obrigado a fazer uma pausa e deixar-me ficar só no sofá a processar a leitura. Sem que o esperasse, estava já submerso nas águas deste livro.

A partir daí foi uma sucessão de textos de uma sensibilidade, beleza e brutalidade incríveis. José Luís Peixoto diz na capa de Filhos da Chuva: "Há vida aqui". E eu digo: Há talento aqui. Um talento e técnica que poucos têm. Há mestria e há alguém que lê muito, condição que sempre disse ser essencial a quem quer escrever.

Fala-se muito de ler os nossos, os autores nacionais, os portugueses, mas não se fala o suficiente do elogio que raramente é feito. Não se fala de quanto nos acanhamos em elogiar só porque é nosso e porque pode parecer exagerado lisonjeio.

Que este seja feito sem amarras, quando merecido.

E foi por isso que precisei de me sentar e escrever realmente sobre o que acabei de ler. Há passagens e personagens que levarei comigo o resto da vida. Há o Filipe menino estranho (queer), filho, amor, que se encontrou nestas páginas sem nunca o esperar (e agradeço por ter sido mantido esse mistério ou por eu nunca ter lido sobre ele antes de pegar no livro).

E há um nome, Álvaro Curia, que me fará querer ler qualquer livro seu.

Conseguir isso com um primeiro livro é obra.

Assim foi o lançamento do "Entre as Mulheres"

Filipe B., 24.10.23

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Entre as Mulheres. Casa cheia. Livros esgotados. 

Confesso que ainda me admiro muito quando aparece tanta gente para a apresentação de um livro meu.

Sei lá, acho sempre que não vem ninguém, que o livro não interessa, sei lá, pensamentos parvos de um autor que ainda está a habituar-se ao valor que lhe dão. E saber que vocês tiram umas horas do vosso dia para estar ali tem muito valor para mim. 

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O lançamento do livro Entre as Mulheres aconteceu no Teatro Maria Noémia na Meia Via, Torres Novas. Foi um dia muito especial e de muita partilha. Devido aos temas centrais do livro, o autismo e o abandono parental, acabei por ter participação e partilha de experiências pessoais de quem assistia à apresentação, o que tornou esta conversa sobre o livro muito mais especial. Adoro quando não sou só eu a falar. 

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Um agradecimento especial à minha amiga Helena Caetano, gestora de projetos da StartUp, e a Elvira Sequeira, vereadora da cultura na Câmara Municipal de Torres Novas, pela presença e participação com palavras tão encorajadoras.

Um obrigado gigante ao pessoal do teatro da Meia Via por estarem sempre disponíveis para me receber tão bem. E outro à Carina Subtil, que aceitou o convite para ler um dos capítulos do livro. 🧡

Um obrigado, claro, do fundo do coração a quem veio e a quem mandou mensagens e palavras bonitas. Vocês são a minha motivação. Sempre.

 

fotos: Nuno Vasco e Vera Branco

Chegaram os primeiros exemplares do meu livro

Filipe B., 12.10.23
 
 
 
 
 
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E é um sentimento que não tem descrição.

Ter o meu novo livro assim nas mãos.

Estou ansioso para que possam ler.

Disponível nas livrarias Wook e Bertrand

Revelação do título e capa do livro

Filipe B., 03.10.23

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E aqui está.

Entre as Mulheres é o título do meu novo livro.

Já disponível em pré-lançamento nas livrarias Wook e Bertrand

E é esta a sinopse: 
"Por que motivo tinha o David uma obsessão tão forte com as sextas-feiras, as visitas ao museu e a cor laranja?

Todas as sextas-feiras Marta veste, por exigência do filho, a mesma camisola laranja. Assim o leva sempre a visitar o mesmo museu, de onde uma enorme janela lhes dá vista para um misterioso casarão. Cumprem esse ritual desde que Simão decidiu desaparecer, incapaz de compreender o autismo do filho, deixando-a sozinha com o menino de 8 anos.

Quando a escola suspende as aulas de ensino especial por falta de verbas, o desespero bate à porta. Marta encontra numa associação de voluntários a solução de apoio para os estudos do filho. O voluntário Mateo entra assim na vida de David como professor, trazendo ensinamentos e transformações que ninguém esperava. Também a passagem do tempo arrasta mudanças e Marta sabe que alguns segredos não poderão ser escondidos para sempre. Até onde irá uma mãe para proteger um filho?"

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A capa bonita criada pela editora Intelectual.

Estou ansioso que leiam este livro, para que possamos discutir o que realmente significa a história de Marta e da sua coragem. 

A oliveira de Saramago

Filipe B., 21.12.22

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Hoje visitei a casa de Saramago em Lanzarote.

Quando digo que Saramago é o meu escritor preferido, as pessoas pensam que o é só porque é português ou porque ganhou o Nobel ou porque é ribatejano como eu. E talvez duas destas condições tenham peso na minha preferência, ainda que eu vá sempre negá-lo. Mas inegável é que as nossas vivências comuns nos aproximam. O Nobel é só um prémio. Já Saramago é o meu preferido porque, como nos disse o guia, com as suas palavras eu vejo do que é feita a pedra e não a pedra.

Visitar a sua casa, num lugar tão especial como esta ilha, foi um acto de várias emoções. Começando com o entrar no seu escritório e ouvir "Foi aqui que Saramago escreveu o Ensaio Sobre a Cegueira, primeira obra que realizou em Lanzarote". O Ensaio foi o meu primeiro livro seu, o que me fez apaixonar pelo seu modo de escrever e é hoje um dos meus livros favoritos de sempre. Já aí me caiu tudo, e depois o estar ali no meio dos seus livros, procurando o que lia. E sim, passei bastante tempo a tentar descobrir o que lia afinal o homem que escreveu "O Ano da Morte de Ricardo Reis" (provavelmente o seu livro meu favorito). E então vejo essa mesma obra na estante, ainda com marcadores e anotações do escritor. Um tesouro diante dos meus olhos, que já brilhavam. Incredulidade. Uma sensação indescritível.

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Mas foi no jardim que caí por terra, quando me contaram a história das oliveiras que trouxe do seu Ribatejo (e outra do Alentejo) para a ilha que o acolheu. Foi aí que chorei. Diante do mar, lá ao fundo. Quem já viveu fora do seu país, como eu vivo, sabe bem que passamos a vida a levar oliveiras na bagagem, atrás de nós, connosco, um bocadinho de casa sempre que se parte e reparte. Uma esperança de que estas cresçam no lugar aos quais queremos chamar casa também. No final, sem ar, arrebatado, sentei-me no jardim de Saramago e escrevi.

Que mais poderia eu fazer? 

O que vier, virá

Filipe B., 02.01.22

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Se me querem ver feliz, é só dar-me um livro para as mãos.

Assim comecei este novo ano.

A ler.

Sereno.

E mergulhado na fantasia de um livro, porque por estes dias não há melhor forma de escape a esta realidade que quase oprime.

Está nas nossas mãos não deixar que isso aconteça.

E o que vier, virá.

Bom ano para todos!

Pessoa em Berlim

Filipe B., 23.04.21

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Ando a ler o Livro do Desassossego.

Continuo também nas aulas intensivas de alemão. São 3 horas por dia, por isso, no fim das aulas, vou sempre dar uma volta de bicicleta pela cidade e ponho-me a ler Fernando Pessoa (ou Bernardo Soares) num parque ao final da tarde. 

Parques enormes, muito verdes e variados é o que não falta aqui em Berlim, felizmente.

Ler filosofia pode realmente tirar-te do teu lugar, mexer em pensamentos tão profundos e mudar a tua perspectiva sobre tanta coisa. E isso é fantástico.

Ontem, enquanto lia sozinho ao Sol no parque, senti isso e ao mesmo tempo senti também que precisava de um pouco de realidade para assentar novamente. 

Quando estava a chegar a casa, do nada, o meu amigo ligou-me e apenas perguntou "Pizza?".

E ali estava, aquele pedaço de realidade de que eu precisava.

Algumas coisas não têm explicação.  E por vezes é melhor assim.

Acabámos por ter uma conversa muito profunda, enquanto comíamos as nossas pizzas num parque já para lá do crepúsculo, porque, claro, até a realidade tem limites.