Memória

É o 21 de Abril de 2019.
O dia de Páscoa.
Daqui a um ano estaremos todos enclausurados por causa de uma pandemia, mas por agora ainda sou só eu isolado no quarto que aluguei num apartamento partilhado aqui em Berlin. Somos 6 nesta casa, cada um na sua cara caixinha de poucos metros quadrados, e nenhum deles sabe que choro de dor aqui dentro.
Ontem operei dois voos longos de Berlim a uma das ilhas Canárias e, no regresso, o meu ouvido direito tapou-se devido à pressão e a um nariz que se foi entupindo com a alergia ao longo do dia. Resultado desastroso. Dor intensa. Lágrimas na aterragem.
Agora já sou eu a andar sob o céu cinzento da cidade alemã à procura de um hospital. Cheguei aqui nem há 2 meses. O meu alemão é escasso e lá me safo com uma mistura de inglês e a ajuda do tradutor no telemóvel.
Mudei-me para a cidade grande sozinho. E ainda não o sei, mas daqui a uns anos lembrarei como este dia me transformou e me fez ver de frente capacidades minhas que desconhecia.
Sem saber bem como, daí a dois dias já estou a sair de uma clínica com algum alívio, medicação extra forte e um papel que me impedirá de voar pelo menos 7 dias. "Com os ouvidos não se brinca", disse-me o doutor num inglês misturado com alemão.
Agora é Novembro de 2025. É só mais um dia cinzento em Berlim. Ouço no LUX da Rosalía a canção Memória, fado que Carminho escreveu para que ela cantasse em português.
Sem saber bem porquê, veio-me aquele acontecimento ao pensamento.
Recordo esta amálgama de recordações que me parecem agora uma só, como se tivessem existido sempre todas ao mesmo tempo nos lugares que a memória preencheu.