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O blog do Fi

um português em Berlim

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HOSTEL: 4 histórias inacreditáveis

Filipe B., 09.01.17




Dormir num quarto partilhado com 8 ou mais desconhecidos? Nunca foi um problema para mim. 

E afinal isso faz parte do espírito de dormir num Hostel, sabendo que vais partilhar o teu espaço e as tuas dicas, mapas e experiências com pessoas provenientes de todo o mundo sempre com base num inglês muito improvisado.  

Mas todos sabemos que há um certo medo em relação aos Hostels, principalmente por parte de quem nunca se aventurou numa estadia dessas. "Mas é seguro?", "Não encontras pessoas estranhas?", "E se te roubam os teus pertences?".

Bem, com este post, vou só contribuir para aumentar esse receio nas pessoas. Brincadeira!

Não, a sério, vou só contar-vos 4 episódios muito engraçados (ainda que possivelmente enervantes) que vivi em vários albergues do género durante a minha longa estadia de 10 meses em Itália. E a verdade é que, tirando estas situações, nunca tive problemas graves em qualquer estadia num Hostel. Optei por não indicar o nome dos sítios, deixando só a indicação da cidade onde aconteceram. É óbvio que na altura as devidas queixas foram escritas no tripadvisor, booking, hostelworld e afins, mas é impossível não sorrir hoje quando recordo estes acontecimentos quase... surreais. 






4 - Roma



Começo com o caso em que o problema não foi o Hostel em si, mas sim um hóspede demasiado estranho que estava lá no mesmo quarto. O espaço tinha 8 camas e duas delas seriam ocupadas por mim e pela minha colega espanhola que estava a viajar comigo. Mal entrámos no quarto notámos um cheiro estranho no ar. Cheirava muito a comida, mas não era um cheiro agradável. Só depois de estarmos ali há uns minutos é que reparámos que estava um rapaz deitado numa cama (as outras estavam livres). Para começar, ele estava a dormir completamente vestido com roupa casual (jeans e camisola de andar na rua... sem um pijama vá!). Depois nós saímos, regressamos umas horas depois e ele continuava na mesma posição, com a mesma roupa, e rodeado daquela comida instantânea, tipo noodles japoneses, que estava a dar ao quarto aquele cheiro... estranho. Voltámos a sair, a entrar, a sair, passeámos pela cidade toda... e naqueles 2 dias, sempre que regressávamos, ele continuava na mesma posição, não dizia uma palavra, não se mexia, com a mesma roupa, e só acumulava mais pacotes de noodles e garrafas de coca-cola à volta da cama (o que indicava que pelo menos não estava morto, pois entretanto já se tinha levantado por momentos para ir buscar essas coisas). O que nos levou a rir muito quando dissemos um para o outro: "Ciao?!? Para estares morto, estavas em casa. Estás em Roma, sai daqui e vai conhecer a cidade, non?".






3 - Florença

Segunda vez na cidade do Renascimento. Cheguei ao Hostel por volta das 18h (o check in era a partir das 14h), mas por acaso na reserva tinha indicado que chegaria mais ou menos por volta das 19h, porque pensava apanhar um comboio mais tarde. Bem, depois de procurar infinitamente pelas ruelas da cidade, lá encontrei o local onde ia dormir (não tinha uma placa, um sinal, nada). E a porta estava trancada. Toquei à campainha. Ninguém respondia. Mas ainda eram só seis da tarde, devia estar alguém para me receber. Lá resolvi ligar ao número que tinha para contacto. Atende-me um rapaz e diz-me que em 20 minutos estará ali para me abrir a porta. Fiquei tipo "Ok..." e a revirar os olhos com aquele ar de quem já não estava crente no que estava a ouvir. Mas o mais estranho estava por vir. Ele chega, reclama que eu cheguei mais cedo do que previsto (Ok!) e entramos para um hall de entrada onde não havia uma recepção, uma caixa registadora, nada. Ele fez-me o check in num papel meio improvisado, paguei e lá fiquei no quarto. O espaço era completamente um apartamento, ao qual alguém tinha decidido chamar Hostel, mas onde não havia uma cozinha (que provavelmente fazia de quarto agora). De facto a estadia tinha sido tão barata que nem me admirei com nada disso. Mas o "recepcionista" tinha prometido que eu podia deixar as malas no dia seguinte mesmo depois de fazer o check out às 11h. E tendo em conta que o meu comboio partiria só por volta das 19h, era perfeito, porque queria passear pela cidade sem carregar pesos atrás. Até que no momento de deixar as malas, ele diz-me para deixar ali no corredor da "recepção" e pronto. "COMO ASSIM?" - perguntei admirado. Diz-me ele: "Sim, aqui", apontando para o chão estreito. Mas não haveria uma sala mais... privada e segura pelo menos? Não, que pergunta estúpida. Era ali, onde toda a gente passava. E adivinhem o que fiz? Tive que aceitar, não tinha outra solução, mas optei por levar a mochila com os objectos mais valiosos. Socorro,







2 - Pisa

Verdade seja dita, este era lindo demais, com uma decoração rústica que mais fazia lembrar uma casa acolhedora do que propriamente um Hostel. Na entrada um papel afixado na porta dizia que um determinado contacto estaria disponível 24h para qualquer problema que surgisse. Logo aí percebi que não estaria sempre alguém na recepção, mas tudo bem. Já tinha pago a estadia, mas faltava pagar a taxa turística de 2€ que em Itália se paga em qualquer cidade (o preço varia entre lugares). Acontece que a senhora da recepção não tinha troco e disse-me para eu ir entrando para o quarto que depois lá me iria dar os 4 euros que me faltavam, pois teria que ir buscar trocos não sei onde. Assim fiz. Entretanto tomei banho, preparei-me para ir jantar e da senhora nem sinal. Como não era um valor assim tão grande, optei por ir comer a tradicional pizza num restaurante no centro da cidade e voltei então mais tarde. A essa hora, por volta da meia-noite, a senhora já não estava ali, por isso esperei pela manhã seguinte para reaver o meu troco. Ok... não era uma fortuna, mas já dava para um lanche pelo menos. Quanto ao pequeno-almoço, no próprio Hostel teria acesso a uma pequena cozinha onde podia preparar chá ou café que eram fornecidos gratuitamente, mas... o gás estava desligado! Não funcionava. Lembrei-me então de ligar para o tal contacto, visto que a senhora continuava desaparecida, mas ninguém atendia. Liguei, liguei, liguei. Sem resultado. Um casal de ingleses veio queixar-se do mesmo, que ninguém atendia naquele número. E entretanto desisti e tive mesmo que ir tomar o meu café fora, pois não consegui encontrar o sítio onde se ligava o gás (e sim, eu procurei em todo o Hostel, mesmo à grande). Afinal todo o espaço estava assim deixado à mercê de qualquer hóspede. O check out estava feito, só tinha que deixar a chave, e aí tive então a conclusão de que já não teria o meu troco de volta. Assim aproveitei para ir visitar a torre inclinada, almoçar e depois, como por acaso, reparei que tinha esquecido umas sapatilhas no Hostel! Não tendo outra opção senão voltar ao local, acabei por ter sorte, pois lá estava a tal senhora, reaparecida... mas completamente esquecida de que me devia 4€ e absolutamente tranquila quando me queixei de que tinha ligado 729 vezes para o número de contacto que supostamente estaria disponível... 24 horas. Encolheu os ombros e riu-se. E eu ri-me também, meio incrédulo, meio sarcástico, já a digitar mentalmente a minha arrasadora avaliação no tripadvisor.







1 - Nápoles

Nada ultrapassa esta situação. Mas nada mesmo. E quem sabe a fama que Napoli tem, com as histórias da máfia e da sua gente super relaxada, irá entender perfeitamente o porquê de isto acontecer nesta cidade. Era a minha segunda vez lá e a segunda vez naquele Hostel. Boa localização, preços baixos, e uma primeira agradável estadia tinham-me levado de volta ali. Era também a segunda noite desta estadia e depois de jantar tinha ido dar um passeio pelas ruas de Nápoles com o ar quente e convidativo do sul de Itália em pleno Junho. Quando regressei ao quarto, para 10 pessoas, todas as luzes estavam já apagadas e quase todos estavam já a dormir. Dirigi-me à minha cama. Ao aproximar-me, só a luz do telemóvel a guiar-me, deu-me a impressão de que estava alguém a dormir no meu lugar. Aproximo-me mais. Vejo um rapaz a tapar os olhos com as mãos para os esconder da luz que eu usava para encontrar a cama onde já tinha dormido na noite interior. Digo-lhe em inglês "Olha, desculpa, mas esta é a minha cama!". Ele mal fala inglês, falava japonês ou chinês (sei lá). Só sei que não conseguimos ter um diálogo. Entretanto entra o senhor da recepção, que tinha vindo ao quarto porque alguém tinha reclamado do ar condicionado que não funcionava. Aproveitei a sua presença e falámos os dois em italiano. Sem grandes preocupações diz-me ele literalmente assim "Este chinês de merd* deve ter percebido mal o número do quarto e da cama, não percebe nada. Olha, muda-te para a cama ao lado e pronto". E eu "Mas nessa cama está outro rapaz, não agora, mas chegou esta tarde... e provavelmente vai dormir aqui, não?!". Diz-me o homem que não, que ele tinha ido embora. E eu achei muito estranho mas... ok! Então lá mudei as minhas coisas, conforme possível, para essa cama e saí para ir um pouco à sala comum e rir-me sozinho da situação. Quando regresso ao quarto estava, CLARO, o tal outro rapaz na cama para onde o homem me tinha mandado dormir. Este também era italiano e já estava tão chateado com o homem da recepção que pediu-me para ir lá eu tentar resolver a situação. Acredita que estou a escrever isto e a parar constantemente para me rir, porque quanto mais o tempo passa, mais surreal isto me parece. Bem, chego à recepção e o senhor está a falar ao telemóvel com alguém. Muito calmo pergunta "Há algum problema?". E eu só digo "Bem, se calhar vou ter que dormir no chão, mas tirando isso... va tutto bene!". Então ele aproveita para reclamar mais sobre o "chinês" que tinha ocupado a minha cama por engano, mas sem nunca largar a sua chamada no telemóvel (porque Nápoles!). E na mesma descontracção diz-me "Olha vai a todos os quartos do Hostel e escolhe uma cama que esteja livre. Podes escolher qualquer uma e não te preocupes.". Depois regressa à sua chamada telefónica deveras importante e eu ponho-me a escolher a melhor cama das que estavam disponíveis. Cheguei ao meu novo quarto por volta das 2 da madrugada e a minha sorte foi que os hóspedes ali ainda estavam todos acordados. Nem expliquei a situação, subi para o meu beliche e só conseguia rir-me sozinho, dando de certeza uma impressão muito boa a quem já estava ali antes de mim. Depois lá me acalmei, mas mesmo antes de adormecer lembro-me "Oh dio mio! O rapaz que ocupou a minha cama está a dormir nos mesmo lençóis que usei na noite anterior!!". E então ri, ri sozinho, feliz por saber que na manhã seguinte partiria, com o rótulo de maluco, certamente, mas com uma grande história para recordar mais tarde sobre uma das cidades que mais amei em terras italianas. 

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