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O blog do Fi

um português em Berlim

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DEIXA-ME SER: comentário sobre o livro

Filipe B., 26.11.16


Acredita quando digo que tenho recebido só amor e uma força muito positiva sobre o livro. Muitas mensagens foram escritas, daquelas de arrepiar. Muitas palavras me foram ditas frontalmente, sempre vindas de pessoas de lágrimas nos olhos, orgulhosas de puderem mostrar-me o seu apoio.

E a todas estas pessoas estou muito agradecido. Escrever é bonito. Publicar um livro, dá-lo a ler toda a gente, é muito mais do que bonito. É outro nível da tua existência como escritor. É receber pensamentos que te levam mais adiante, que te fazem questionar e repensar aquilo que tu próprio escreveste. Há uma certa magia nisso, sabem? Como se fosse alguma partilha transcendente entre quem inventou aqueles textos e quem os quis ler. Então neste livro, por ser de cariz biográfico, isto intensifica-se. E hoje trago-vos parte de um longo texto que me foi enviado por um dos leitores deste "Deixa-me ser".

Com a devida autorização, partilho-o aqui, juntamente com algumas informações. O Pawel, quem escreveu o que vão ler, é um jovem que eu não conhecia... até ao dia do lançamento do livro em Lisboa. Ele foi lá para assistir e comprou um livro no final. O Pawel não é português (já tinhas desconfiado pelo nome, não é?). Por que friso esse aspecto? Bem, tal como ele, eu sei muito bem o que é estar longe do teu país, da tua língua, da tua zona de conforto, etc. Também sei o que é chegar a outro país e de repente surgir aquele receio de "Como serão tratados os temas LGBT aqui? Que tipo de aceitação há? Que tipo de discussão se levanta?". É que nós, os diferentes, teremos sempre que pensar nesses pormenores, sabes? 

Logo tenho muito Orgulho de que ele tenha lido o meu livro numa língua que não é a sua... e de que me tenha dirigido palavras tão certas e tão bem redigidas sobre a minha obra. É disto que falei antes, de levantarmos novas questões, de analisarmos outros pontos de vista. E de assim andarmos todos juntos em frente.

A ele agradeço por tudo o que me disse, porque embora eu não seja religioso, devo reconhecer o seguinte: sou um ser muito abençoado. E quando lerem as palavras dele, já vão entender porque digo isto.

Seja sorte, resultado da minha luta, seja o amor. Ninguém me convence do contrário, há uma Força muito grande por detrás disto tudo.

E ele escreveu então assim:

"Caro Filipe,
Há duas horas terminei a leitura da tua autobiografia e, se não te importares, queria partilhar contigo algumas das minhas impressões e observações. (...)
A meu ver, todo o relato daqueles (quase) dez anos da tua vida é muito comovedor, especialmente as primeiras páginas onde descreves as tuas experiências que de todas as formas foram muito dramáticas. Nem eu desejava ao meu pior inimigo que tivesse passado por coisas parecidas. Graças a Deus, foste salvo, tanto por ti mesmo como pelos teus familiares e amigos, para realizar vários projectos de grande valor, entre os quais se encontra o teu livro.
(...) Primeiro, é um facto indiscutível que a homofobia e o discurso de ódio em relação às pessoas não-heterosexuais continuam a ser presentes na nossa sociedade, seja em Portugal, seja na minha terra natal, ou em qualquer outra parte do mundo. Felizmente, cada vez há mais pessoas como tu, que começam a falar em voz alta sobre a necessidade de reconhecer os direitos das pessoas LGBT para que elas sejam aceites plenamente na nossa sociedade. Tenho a certeza absoluta de que o teu livro será um grande apoio para muitas pessoas, ajudando-as a acreditar que ser pessoa LGBT é algo absolutamente normal.
Depois hei-de te confessar algo mais privado acerca das minhas observações: acredita... nunca tive problemas nem dificuldades por ser gay, seja em família, seja entre amigos. Sem dúvida, o maior contraste entre as nossas experiências consta na atitude do pai: o meu aceitou-me sem maior obstáculo. Claro, tenho a certeza de que ele preferia que eu tivesse uma namorada e, em seguida, um lar com futuros filhos que seriam seus netos, pois ele sempre sonhou em ter uma família numerosa. Mas sabe que a minha vida é só minha e que os dois precisamos um do outro.
O que quero dizer é que a leitura do teu livro me permitiu apreciar de maneira completa e evidente a vida e as experiências positivas que tenho tido nos assuntos que uma pessoa homossexual pode ter.
Termino já esta pequena redacção para não cansar demais os teus olhos. Fica a saber que és um grande herói, podes crer!
Mando-te um grande abraço."

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