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O blog do Fi

um português em Berlim

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Berlim, meu amor

Filipe B., 17.12.20

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Hoje é o meu último dia deste ano em Berlim, antes do meu merecido regresso a Portugal.

Tenho muito a agradecer a este lugar por tudo o que cá vivi neste 2020, por isso tirei uns momentos e, antes de sequer fazer a mala, saí para a rua e caminhei aqui por Prenzlauer Berg, o meu bairro. 

Prenzlauer Berg tem vida, tanta vida que nunca pára... ou nunca parava, porque este ano parou. Lá nos distantes meses de Março e Abril, o primeiro lockdown foi assustador. Lembro-me de estranhar o silêncio da minha rua, uma das maiores e mais movimentadas avenidas de Berlim. Recordo bem o não sentir as bicicletas passar, de ver o tram ir vazio e olhar para os restaurantes e bares de luzes apagadas. Agora vivemos o segundo lockdown aqui e parece que recuamos no tempo. Cheguei a achar que não iria aguentar uma coisa destas, estando sem trabalhar, entregue à monotonia e ao silêncio que obrigava, por vezes demais, a uma reflexão tremenda. E fui abaixo várias vezes. Então não fui? Mas quem é que não foi, este ano?

Só que houve sempre algo que me trouxe ao de cima. 

Imagina viver na tua cidade favorita. É o meu caso. E foi por isso que aguentei. 

Não vivo aqui exactamente por ter escolhido. Embora pudesse ter sempre recusado, parece que foram várias jogadas do Destino que me trouxeram aqui.

Foi amor à primeira vista. Lembro bem a minha primeira noite aqui, sozinho, naquele Novembro gelado de 2018, quando vim para a minha entrevista de emprego. Soube logo que ia ficar, mesmo que não fosse nesse trabalho, teria de ser noutro porque o chamamento era assim tão intenso. 

Em Abril de 2019 já cá morava. De início achei que podia ser só um deslumbramento por algo novo, mas pouco a pouco fui percebendo que este era o meu lugar. Às vezes sinto que Berlim esperava por mim.

Berlim não tem filtros. Podes ser o que tu quiseres, podes ser o mais banal ou o mais radical, e ninguém quer saber. 

Foi nesse espectro que me encontrei. Foi aí que encontrei a minha paz e todos os lugares, alguns secretos, onde posso ir e não ter medo de nada. 

Neste 2020 que tantos desafios nos trouxe, agradeci imensas vezes por estar num sítio que verdadeiramente amo, e nem consigo imaginar o que aconteceria se estivesse, como já estive, num lugar onde apenas estaria só por estar, sem qualquer conexão emocional.

Tenho o hábito de falar com os lugares por onde passo. Chamem-me maluco, mas acho que as cidades nos ouvem e sentem. 

Hoje disse-lhe "Obrigado, Berlim, meu amor... pela Força que me deste". E despedi-me até 2021.

Quis perguntar-lhe se por acaso sabe o que me reserva esse futuro, mas acabei por não o fazer. 

Quando lá chegar, saberei, da mesma forma que o soube assim que aqui cheguei.

 

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