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O blog do Fi

um português em Berlim

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Apontamentos da Islândia

Filipe B., 18.11.25

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Em Setembro viajei pela primeira vez para a Islândia e percorri-a durante 12 dias numa caravana. O meu bloco de notas acompanhou-me de norte a sul e estes são alguns dos apontamentos que posso partilhar.

"13/09/2025 10:30h (hora islandesa)

Faz frio na terra do gelo. Quem diria... Mas até passei bem a noite na carrinha/caravana alugada para quatro. Só a cara é que acordou fresquinha, a ponta do nariz gelada. Soará estranho se disser que até soube bem?"

"14/09/2025 12:12h 

Hoje bem cedo de manhã visitamos um local que era basicamente um cenário de Death Stranding na vida real. Fez-me chorar. (...) A natureza na Islândia é esmagadora e reduz-nos à nossa insignificância. Poucas fotos ou vídeos poderão realmente mostrar a grandeza desta ilha. Ali, agradeci aos montes, vales e rios por me acolherem na sua presença."

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"16/09/2025 9:32h

O homem aqui é tão pequeno. Perto de nada. Vamos ver agora mais uma cascata impressionante. Já percorremos centenas de quilómetros, outros tantos para chegar aqui, e a Islândia impressiona e impressiona."

"18/09/2025 18:08h

Ontem subimos a um glaciar e fomos dentro das grutas de gelo. À noite vimos a aurora no céu. E agora estamos a caminho do norte e começou a nevar. Esta viagem foi abençoada."

"20/09/2025 10:13h

A neve caiu em força na última noite e tudo é branco à minha volta nesta estrada que percorremos lentamente, com medo dos perigos do gelo. Pensei no meu pai ao olhar as montanhas brancas lá ao fundo".

"22/09/2025 9:57h

Voltámos ao lado oeste da ilha e às paisagens de Death Stranding. Eu apenas choro. Este lado da ilha é arrasador e a forma perfeita de concluir esta viagem, regressando onde tudo começou.

10:13h

Percebe-se tão bem por que é que o Kojima escolheu os Low Roar como banda-sonora para o Death Stranding. Percorrendo estas paisagens desoladas, mas tão magníficas, parece-nos que estas músicas brotaram deste chão, saíram da terra, nasceram do terreno vulcânico".

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Cabin crew: como preparar-se para uma entrevista?

Filipe B., 15.11.25

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Como preparar-me para uma entrevista para comissário/a de bordo?

O meu texto sobre como foi o meu curso na easyJet em 2019 continua a ser um dos mais lidos aqui do blog todos os meses e há sempre alguém a pedir conselhos sobre a profissão, por isso achei que estava na altura de partilhar convosco algumas dicas sobre como brilhar numa entrevista para um trabalho na aviação.

Com quase 8 anos de experiência de Comissário de Bordo (e há mais de um ano que sou Chefe de Cabine), já passei por várias entrevistas em diferentes companhias aéreas e com recrutadores mesmo exigentes. Vou partilhar convosco o que aprendi ao longo deste percurso e o que me ajudou a conseguir o lugar que tanto queria. Se estão a pensar candidatar-se, estas dicas podem fazer a diferença entre o sim e o não.

1. Contem histórias reais.
Lembrem-se de situações em que tiveram de trabalhar sob stress e contem-nas como se estivessem a narrar uma história. Usem muito o "eu fiz", "eu pedi (a um colega)", "eu sugeri". Coloquem-se no centro da acção, mas falem de uma situação em que o trabalho foi em grupo. Isso mostra proactividade, experiência e espírito de equipa. Por exemplo, na minha entrevista para a easyJet ainda só tinha 10 meses de aviação (na Ryanair) e acabei por ir buscar um exemplo de "um dia stressante" no meu trabalho anterior num hotel. A questão do recrutador foi mesmo "Consegue lembrar-se de uma situação em que teve que trabalhar e tomar decisões sobre stress?". Usei um exemplo mesmo vívido. Isto mostrou-lhe capacidade de liderança e resolução de problemas. Outra dica dentro do mesmo assunto: sejam honestos. Depois de ouvir a minha história, o recrutador perguntou-me se hoje faria algo diferente naquela situação e a minha resposta foi algo como "hoje pensaria melhor, com mais calma, pediria ajuda a outros colegas, etc". Mostrem que conseguem aprender com erros e evoluir. 

2. O inglês é uma ferramenta de trabalho.
Aqui vai o meu conselho: pratiquem inglês todos os dias antes da entrevista. Eu até falava sozinho, criava perguntas na minha mente e respondia em voz alta para ouvir o meu sotaque, a entoação, o ritmo. Falar claramente na entrevista é essencial. E o inglês é a língua da aviação. Algumas companhias fazem a maior parte da entrevista com a língua do país/base. Por exemplo, já tive uma entrevista em alemão aqui na Alemanha (e passei!). E é natural que se for uma companhia portuguesa, italiana ou francesa, seja usada também a "língua mãe", mas acabarão sempre por fazer algumas questões em inglês para testar o vosso domínio da língua. Se não estão ainda 100% à vontade com a língua, ouçam podcasts e leiam notícias ou outros textos em inglês (se forem sobre o tema da aviação ainda melhor pois vão logo ganhar vocabulário sobre o mundo dos aviões)

3. Os olhos não mentem! (mesmo no ecrã)
Treinem o contacto visual! Se for online, olhem para a câmara e não para a imagem no ecrã. Se for presente, mantenham o olhar confiante e directo. Lembrem-se: no ar, vão lidar com passageiros de todas as culturas e em vários estados de espírito: alguns felizes por viajar, outros com medo de voar, outros insatisfeitos com a comida ou com as tarifas da bagagem. O contacto visual transmite segurança e deve mostrar presença e empatia. Treinar em frente ao espelho ou com amigos/família (ou mesmo gravando alguns vídeos se for para uma entrevista online) pode ajudar bastante. 

4. Conheçam a companhia à qual estão a candidatar-se.
Pode parecer óbvio, mas isto é fundamental! Muitas vezes fui surpreendido com questões sobre a companhia aérea. Pesquisem tudo: é uma low cost ou uma companhia "tradicional"? Faz voos de longo curso? Quais as suas bases principais (voa a partir de Lisboa, Roma, Madrid, Berlim?). Qual a frota? É Airbus ou Boeing? Na minha preparação para a easyJet, sabia de cor que operava principalmente na Europa, que a base que me interessava era Berlim, e que voava apenas com Airbus. Também já tinha alguns colegas que trabalhavam lá há algum tempo e que me contaram mais sobre o espírito da empresa e não hesitei em partilhar isso na entrevista. Quando me perguntaram "why easyJet?", pude responder com convicção.

5. Mostrem que são team players.
Aqui não chega dizer "gosto de trabalhar em equipa". Tem de ser com exemplos concretos. O trabalho numa cabine com pelo menos 4 tripulantes (ou mais) não se faz senão em equipa. Falem de como poderão contruibuir para um trabalho regrado, mas também flexível, que são pessoas disponíveis para ajudar os outros (por exemplo, se um colega estiver mais cansado), que já o fizeram no passado e que estão mais do que prontos para voltar a fazê-lo. Novamente, usem exemplos reais e mostrem quem são como pessoa e como isso pode benificiar uma equipa onde vários tipos de personalidade deverão alinhar-se para atingir um objectivo comum.

O mais importante? Sejam autênticos. A aviação precisa de pessoas reais, não de robots perfeitamente ensinados (e é por isso que é um dos poucos trabalhos que ainda não foi substituido por máquinas). O trabalho como comissário de bordo é sim um trabalho com muitas regras e princípios que devem ser seguidos, mas é algo que exige poder de adaptação e até de improvisação.

E lembrem-se. Mostrem a vossa paixão pelo serviço ao cliente/passageiro e pela aviação. Acreditem ou não, isto transparece mesmo quando as palavras falham.

E nunca, mas nunca desistam à primeira negativa. A minha história é a prova disso mesmo.

Boa sorte! ✈️

 

(a foto que ilustra este post é minha e foi tirada numa paragem de algumas horas em Tenerife num dia de trabalho. Espero que vos inspire a seguir este sonho).

Memória

Filipe B., 09.11.25

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É o 21 de Abril de 2019.

O dia de Páscoa.

Daqui a um ano estaremos todos enclausurados por causa de uma pandemia, mas por agora ainda sou só eu isolado no quarto que aluguei num apartamento partilhado aqui em Berlin. Somos 6 nesta casa, cada um na sua cara caixinha de poucos metros quadrados, e nenhum deles sabe que choro de dor aqui dentro.

Ontem operei dois voos longos de Berlim a uma das ilhas Canárias e, no regresso, o meu ouvido direito tapou-se devido à pressão e a um nariz que se foi entupindo com a alergia ao longo do dia. Resultado desastroso. Dor intensa. Lágrimas na aterragem.  

Agora já sou eu a andar sob o céu cinzento da cidade alemã à procura de um hospital. Cheguei aqui nem há 2 meses. O meu alemão é escasso e lá me safo com uma mistura de inglês e a ajuda do tradutor no telemóvel.

Mudei-me para a cidade grande sozinho. E ainda não o sei, mas daqui a uns anos lembrarei como este dia me transformou e me fez ver de frente capacidades minhas que desconhecia.

Sem saber bem como, daí a dois dias já estou a sair de uma clínica com algum alívio, medicação extra forte e um papel que me impedirá de voar pelo menos 7 dias. "Com os ouvidos não se brinca", disse-me o doutor num inglês misturado com alemão.

Agora é Novembro de 2025. É só mais um dia cinzento em Berlim. Ouço no LUX da Rosalía a canção Memória, fado que Carminho escreveu para que ela cantasse em português.

Sem saber bem porquê, veio-me aquele acontecimento ao pensamento.

Recordo esta amálgama de recordações que me parecem agora uma só, como se tivessem existido sempre todas ao mesmo tempo nos lugares que a memória preencheu.