Perder um pai

(escrito em Julho num voo para Lisboa)
O meu pai piorou.
Eu também estive/estou doente e sem trabalhar.
Parece que tudo se juntou assim num caos quase perfeito.
Carrego em mim uma dor e cansaço atípicos. Ninguém, por mais que se prepare, estará alguma vez preparado para a perda de um pai.
Não é só o corpo que se perde (não é só ausência física).
É a mente. O falar.
As mensagens de bom dia.
"Vais para onde hoje?".
"Diz-me quando chegares a casa".
"Já aterraste?".
"Não dizes nada?".
É a preocupação. Perde-se a preocupação do outro lado e parece que deixa de ser muito importante para onde se vai, se já se chegou, se não se diz nada.
Não queria que o meu pai sofresse. Ele não merecia. Preferia eu sofrer no lugar dele, porque me sinto mais forte e mais capaz.
Às vezes há momentos absolutamente normais, como quando estou a pôr a louça na máquina ou só a passar da porta da cozinha para o quarto, e aperta-me um sufoco tão grande, como mãos violentas ali a espremer-me a garganta, e nem sei se chego a chorar, mas sinto os olhos tão pesados e a arder, o ar a fugir-me do peito, o medo a gritar-me por dentro. Depois o Peter abraça-me sem eu dar por nada e vejo-me já só abraçado nele, as mãos leves a amaciar-me o cabelo, e parece que tudo passou, que daí a nada me liga o pai a comer um prato de sopa à hora do telejornal.
Mas não liga.
Eu bem chamo por isso, mas a chamada não vem.
E o meu pai ainda cá está. Só que perder um pai não é só perder a presença. É aceitar o que se vai perdendo. Ou melhor, fingir que se vai aceitando, fugindo daquele aperto como quem foge da cruz.
E ela cada vez maior, cada vez mais erguida ao alto, a cruz, a sua sombra fria a ocupar mais e mais espaço. A cruz/consciência cada vez mais presente.
"Paizinho, paizinho", repito tantas vezes em voz baixa só para mim, como se o soprar desta palavra pudesse destapar por aí algum milagre escondido na terra que me ampara os pés.
"Paizinho, paizinho".