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O blog do Fi

um português em Berlim

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Lorenzo & Pedro e o ódio da semana

Filipe B., 06.06.16
A foto da polémica. E outras fotos que não geraram tantos comentários... 


Lorenzo and Pedro explodiram para o conhecimento da sociedade em geral quando gravaram e publicaram um vídeo em que andavam de mãos dadas (e trocavam afectos em público) pelas ruas de Lisboa. O vídeo primeiro tornou-se viral (falando em termos de internet), mas depois saltou para jornais online, canais de televisão, etc, etc. 

Muito aconteceu depois disso, mas o que aconteceu nestes últimos dias é só mais uma prova de que neste mundo virtual do facebook (e afins) é demasiado fácil passar-se de bestial a besta. Só no curto espaço de uma semana, vimos o mesmo acontecer com José Cid e Nuno Markl (este último, perante ameaças violentas online, chegou mesmo a mostrar a vontade de cancelar a sua página oficial no facebook). 

Mas a internet estaria ainda para rebentar (ainda que noutro imenso contexto) contra a dupla de youtubers, que por estes dias decidiu tirar e partilhar uma fotografia com o ex-primeiro ministro Pedro Passos Coelho. Primeiro caíram no erro de tratá-lo como se fosse o actual primeiro-ministro. Depois caíram-lhes em cima os comentários revoltados sobre a figura política que nada fez a favor da comunidade LGBTI. O ódio gerou-se sobre estarem a posar para a foto com alguém que afinal nada teve a favor de leis e conquistas importantes de toda uma comunidade, a mesma para a qual este casal fez o vídeo que já citei (e outro que partilharei em baixo).

Lembro-me que quando se tornaram virais, houve um amigo que discutiu comigo a possibilidade de estes vídeos serem apenas uma jogada de publicidade para estes youtubers. Lembro-me ainda melhor que lhe respondi que por mim podia bem ser, que pouco me importava, pois aquilo que me interessava era tão só e apenas a visibilidade que - de uma forma inesperada - trouxe para a esfera pública novamente EM FORÇA o assunto da homofobia e o facto de casais LGBTI não terem o mesmo direito a manifestações públicas de carinhos (como a restante população), por medo de represálias.

Mas dessa conversa eu tive a conclusão de que até dentro desta comunidade (que devia ser mais unida, como todos bem sabemos) existia portanto já uma bomba contra este casal que estaria só à espera do pequeno primeiro erro para rebentar.

E aconteceu. Aqui está. Não me enganei.

Do nada vi sites, organizações e pessoas a criticarem este passo. Vi essas partilhas serem feitas por quem nunca teve um minuto para partilhar os tais vídeos que só faziam bem e falavam da necessidade de haver a tal igualdade. Podia estar uma semana a escrever sobre este ponto...

Mas vamos aos factos. Eu jamais tiraria uma foto com aquele senhor. Nem que me pagassem. Mas se eles acharam que o deviam fazer, qual é o problema? Ignoraram os factos mais políticos? Sim! Isso é grave? Sim é, se pensarmos que todos devemos estar mais ou menos informados sobre estes assuntos. Mas por acaso a forma como têm chamado a atenção para o mal da homofobia, mudou de alguma forma depois disto? Os seus vídeos virais tornaram-se de repente um ataque contra todos nós?

Isto fez-me logo lembrar a história do Sam Smith, que este ano também foi crucificado em público por desconhecer grande parte da História das lutas LGBT. Mas por acaso lembraram-se de pesar também o facto de que ele assumiu-se abertamente como cantor gay, abrindo as portas (do armário?) para que isso aconteça mais frequentemente? Não foi o primeiro, não. Mas foi mais um exemplo POSITIVO! 

E só tenho que acrescentar o seguinte. Todos estamos sujeitos a errar. Se formos famosos, estamos ainda mais sujeitos a sermos julgados por isso. Mas se alguém fizer o mínimo que seja a favor desta luta comum, a mim pouco me interessa se desconhece os significados de nomes como Harvey Milk, Gisberta ou Stonewall. Se não sabe se aquele ministro fez isto ou aquilo, terei eu direito a escrever comentários carregados de ódio só por isso?

Lembrem-se de que há lutas que vêm por instinto, porque pensamos em fazê-las por bem, como certamente eles pensaram ao realizar o primeiro grande vídeo viral, conseguindo catapultar para os assuntos do dia algo que só veio ajudar o trabalho que montes de associações (e pessoas) têm vindo a fazer há muitos, muitos anos em prol destas lutas por uma sociedade mais aberta e menos preconceituosa. 

Nada substitui o que essas associações fazem, disso não tenham dúvidas. Nem sou eu, nem tu, nem uma dupla de youtubers que irá mudar a sós toda uma sociedade. E talvez seja errado chamar activistas ao Lorenzo e ao Pedro. Mas então não lhes chamem isso, metam os rótulos de parte e deixem-nos ser o que eles quiserem. 

Eu não os conheço. Não sei quais são as suas intenções. Mas estarei eternamente grato pela visibilidade positiva que trouxeram a um tema, de uma forma tão próxima e transparente, tocando corações e mentes de quem talvez nunca tinha parado para pensar muito sobre o assunto. 

E uma foto não desfez todo o belo trabalho que fizeram até então. Aqui está um vídeo recente que é exactamente a prova disso.