Deixa-me ser - pequeno excerto do livro
Filipe B., 18.05.16
Retirado da parte XII do Capítulo 3 do meu livro biográfico: Deixa-me ser.
"2009, Setembro
(...) Quando falo emsegurança, refiro-me ao modo como era acolhido ali, sentindo sempre que nosmomentos em que estivesse sozinho, teria sempre na casa C do terceiro andar, umgénero de família que se improvisava por necessidade. Eu precisava delas e elasprecisavam de mim. Ao fim das noites de trabalho, do cansaço dos estudos ou dopós-apocalipse de alguma noitada, havia sempre algum de nós que surgia com umsaco cheio de fast food, um filmepara ver ou uma conversa simples de se ter. E nessa naturalidade tão própria desermos assim, fomo-nos conquistando uns ao outros.
Não demorou muito até que alguma das camas, osofá da sala ou mesmo o chão de algum dos quartos, passasse a ser também o meupouso. Vivia, novamente sem o saber, os dias mais felizes da minha vida; atéentão. Obviamente que se o escrevo agora assim, deixo-te já a pensar em algumapista para algum tipo de tragédia que se seguirá nos próximos actos, quenarrarei como até aqui tenho feito. Mas não penses que o farei de ânimo leve, epodes ponderar que, mais fundo do que fui nos capítulos anteriores, é impossívela um ser humano sucumbir. Terás a tua razão, mas talvez deva acrescentar quenas jornadas anteriores, a minha descida foi feita quase a sós, descendo passoa passo a caverna do meu próprio isolamento. E nunca me dirigi a ti, leitor,mas tinha que o fazer agora, pois daqui em diante iremos juntos perceber que sóé possível uma descida tão severa e penosa ao lado mais retorcido e escondidodo nosso ser, quando o fazemos acompanhados por alguém que amamos.
Conquistadoentão o meu espaço naquela casa, que afinal era de todos, passei a frequentá-la com omeu namorado. (...) Pelo menos quando estávamos ali, podíamos sentir-noscompletamente à vontade, sem aquele medo inconsciente que sempre nos perseguiaquando estávamos num jardim público, nalguma rua, algum café. Aí erasempre diferente, tentávamos sempre disfarçar a nossa intimidade. Ele tinhareceio, mais do que eu. (...) O mais natural,pareceu-nos, foi reservarmos os nossos momentos mais íntimos, os beijos, ascarícias, trocas de amor, para lugares onde éramos bem recebidos e aceites,embora, claro está, isso fosse completamente injusto quando observado de um pontode vista social e dos nossos direitos."
