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O blog do Fi

um português em Berlim

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Ventura, o aproveitador

Filipe B., 20.12.25

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O André Ventura aproveita-se da tua tristeza, da tua pobreza e da tua depressão. Eu sei que custa ouvir isto, mas alguém tem de dizer as verdades.

Num país onde o acesso a cuidados de saúde mental ainda custa tanto, é mais fácil descarregar a tua frustração nos outros. Numa minoria, como os imigrantes, por exemplo. E eu entendo, juro que entendo. É muito mais fácil procurar culpar alguém pelo nosso fracasso do que olhar para dentro de nós.

E eu sei, não é fácil chegar ao fim do mês a contar tostões, ter um trabalho onde és explorado, não conseguir comprar ou alugar uma casa. Eu sei que custa. Mas que medidas apresentou o André Ventura para te melhorar a vida? Onde é que culpar os imigrantes muda a tua situação?

Que proposta fez ele contra o novo pacote laboral que só te vai atacar e deixar ainda mais pobre e com trabalhos precários? Nenhuma.

 O André Ventura é financiado pelos ricos. E ele não quer saber de ti. Quer saber dos teus votos, mas quando chegar ao poder, tu estarás para ele ao mesmo nível dos imigrantes que ele tanto ataca. Porque tu és pobre, não tens recursos e acrescentas zero interesse ao partido da elite que é o Chega.

Eu sou emigrante. Na Alemanha. E custa-me muito ver este usar do ódio fácil contra quem só procura uma vida melhor, como tu, só porque isso dá votos. Nós portugueses não somos assim. Somos um povo acolhedor.

E tu não devias deixar um fala-barato de conversa de café ditar quem tu deves ser.

 

Apontamentos da Islândia

Filipe B., 18.11.25

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Em Setembro viajei pela primeira vez para a Islândia e percorri-a durante 12 dias numa caravana. O meu bloco de notas acompanhou-me de norte a sul e estes são alguns dos apontamentos que posso partilhar.

"13/09/2025 10:30h (hora islandesa)

Faz frio na terra do gelo. Quem diria... Mas até passei bem a noite na carrinha/caravana alugada para quatro. Só a cara é que acordou fresquinha, a ponta do nariz gelada. Soará estranho se disser que até soube bem?"

"14/09/2025 12:12h 

Hoje bem cedo de manhã visitamos um local que era basicamente um cenário de Death Stranding na vida real. Fez-me chorar. (...) A natureza na Islândia é esmagadora e reduz-nos à nossa insignificância. Poucas fotos ou vídeos poderão realmente mostrar a grandeza desta ilha. Ali, agradeci aos montes, vales e rios por me acolherem na sua presença."

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"16/09/2025 9:32h

O homem aqui é tão pequeno. Perto de nada. Vamos ver agora mais uma cascata impressionante. Já percorremos centenas de quilómetros, outros tantos para chegar aqui, e a Islândia impressiona e impressiona."

"18/09/2025 18:08h

Ontem subimos a um glaciar e fomos dentro das grutas de gelo. À noite vimos a aurora no céu. E agora estamos a caminho do norte e começou a nevar. Esta viagem foi abençoada."

"20/09/2025 10:13h

A neve caiu em força na última noite e tudo é branco à minha volta nesta estrada que percorremos lentamente, com medo dos perigos do gelo. Pensei no meu pai ao olhar as montanhas brancas lá ao fundo".

"22/09/2025 9:57h

Voltámos ao lado oeste da ilha e às paisagens de Death Stranding. Eu apenas choro. Este lado da ilha é arrasador e a forma perfeita de concluir esta viagem, regressando onde tudo começou.

10:13h

Percebe-se tão bem por que é que o Kojima escolheu os Low Roar como banda-sonora para o Death Stranding. Percorrendo estas paisagens desoladas, mas tão magníficas, parece-nos que estas músicas brotaram deste chão, saíram da terra, nasceram do terreno vulcânico".

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Cabin crew: como preparar-se para uma entrevista?

Filipe B., 15.11.25

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Como preparar-me para uma entrevista para comissário/a de bordo?

O meu texto sobre como foi o meu curso na easyJet em 2019 continua a ser um dos mais lidos aqui do blog todos os meses e há sempre alguém a pedir conselhos sobre a profissão, por isso achei que estava na altura de partilhar convosco algumas dicas sobre como brilhar numa entrevista para um trabalho na aviação.

Com quase 8 anos de experiência de Comissário de Bordo (e há mais de um ano que sou Chefe de Cabine), já passei por várias entrevistas em diferentes companhias aéreas e com recrutadores mesmo exigentes. Vou partilhar convosco o que aprendi ao longo deste percurso e o que me ajudou a conseguir o lugar que tanto queria. Se estão a pensar candidatar-se, estas dicas podem fazer a diferença entre o sim e o não.

1. Contem histórias reais.
Lembrem-se de situações em que tiveram de trabalhar sob stress e contem-nas como se estivessem a narrar uma história. Usem muito o "eu fiz", "eu pedi (a um colega)", "eu sugeri". Coloquem-se no centro da acção, mas falem de uma situação em que o trabalho foi em grupo. Isso mostra proactividade, experiência e espírito de equipa. Por exemplo, na minha entrevista para a easyJet ainda só tinha 10 meses de aviação (na Ryanair) e acabei por ir buscar um exemplo de "um dia stressante" no meu trabalho anterior num hotel. A questão do recrutador foi mesmo "Consegue lembrar-se de uma situação em que teve que trabalhar e tomar decisões sobre stress?". Usei um exemplo mesmo vívido. Isto mostrou-lhe capacidade de liderança e resolução de problemas. Outra dica dentro do mesmo assunto: sejam honestos. Depois de ouvir a minha história, o recrutador perguntou-me se hoje faria algo diferente naquela situação e a minha resposta foi algo como "hoje pensaria melhor, com mais calma, pediria ajuda a outros colegas, etc". Mostrem que conseguem aprender com erros e evoluir. 

2. O inglês é uma ferramenta de trabalho.
Aqui vai o meu conselho: pratiquem inglês todos os dias antes da entrevista. Eu até falava sozinho, criava perguntas na minha mente e respondia em voz alta para ouvir o meu sotaque, a entoação, o ritmo. Falar claramente na entrevista é essencial. E o inglês é a língua da aviação. Algumas companhias fazem a maior parte da entrevista com a língua do país/base. Por exemplo, já tive uma entrevista em alemão aqui na Alemanha (e passei!). E é natural que se for uma companhia portuguesa, italiana ou francesa, seja usada também a "língua mãe", mas acabarão sempre por fazer algumas questões em inglês para testar o vosso domínio da língua. Se não estão ainda 100% à vontade com a língua, ouçam podcasts e leiam notícias ou outros textos em inglês (se forem sobre o tema da aviação ainda melhor pois vão logo ganhar vocabulário sobre o mundo dos aviões)

3. Os olhos não mentem! (mesmo no ecrã)
Treinem o contacto visual! Se for online, olhem para a câmara e não para a imagem no ecrã. Se for presente, mantenham o olhar confiante e directo. Lembrem-se: no ar, vão lidar com passageiros de todas as culturas e em vários estados de espírito: alguns felizes por viajar, outros com medo de voar, outros insatisfeitos com a comida ou com as tarifas da bagagem. O contacto visual transmite segurança e deve mostrar presença e empatia. Treinar em frente ao espelho ou com amigos/família (ou mesmo gravando alguns vídeos se for para uma entrevista online) pode ajudar bastante. 

4. Conheçam a companhia à qual estão a candidatar-se.
Pode parecer óbvio, mas isto é fundamental! Muitas vezes fui surpreendido com questões sobre a companhia aérea. Pesquisem tudo: é uma low cost ou uma companhia "tradicional"? Faz voos de longo curso? Quais as suas bases principais (voa a partir de Lisboa, Roma, Madrid, Berlim?). Qual a frota? É Airbus ou Boeing? Na minha preparação para a easyJet, sabia de cor que operava principalmente na Europa, que a base que me interessava era Berlim, e que voava apenas com Airbus. Também já tinha alguns colegas que trabalhavam lá há algum tempo e que me contaram mais sobre o espírito da empresa e não hesitei em partilhar isso na entrevista. Quando me perguntaram "why easyJet?", pude responder com convicção.

5. Mostrem que são team players.
Aqui não chega dizer "gosto de trabalhar em equipa". Tem de ser com exemplos concretos. O trabalho numa cabine com pelo menos 4 tripulantes (ou mais) não se faz senão em equipa. Falem de como poderão contruibuir para um trabalho regrado, mas também flexível, que são pessoas disponíveis para ajudar os outros (por exemplo, se um colega estiver mais cansado), que já o fizeram no passado e que estão mais do que prontos para voltar a fazê-lo. Novamente, usem exemplos reais e mostrem quem são como pessoa e como isso pode benificiar uma equipa onde vários tipos de personalidade deverão alinhar-se para atingir um objectivo comum.

O mais importante? Sejam autênticos. A aviação precisa de pessoas reais, não de robots perfeitamente ensinados (e é por isso que é um dos poucos trabalhos que ainda não foi substituido por máquinas). O trabalho como comissário de bordo é sim um trabalho com muitas regras e princípios que devem ser seguidos, mas é algo que exige poder de adaptação e até de improvisação.

E lembrem-se. Mostrem a vossa paixão pelo serviço ao cliente/passageiro e pela aviação. Acreditem ou não, isto transparece mesmo quando as palavras falham.

E nunca, mas nunca desistam à primeira negativa. A minha história é a prova disso mesmo.

Boa sorte! ✈️

 

(a foto que ilustra este post é minha e foi tirada numa paragem de algumas horas em Tenerife num dia de trabalho. Espero que vos inspire a seguir este sonho).

Memória

Filipe B., 09.11.25

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É o 21 de Abril de 2019.

O dia de Páscoa.

Daqui a um ano estaremos todos enclausurados por causa de uma pandemia, mas por agora ainda sou só eu isolado no quarto que aluguei num apartamento partilhado aqui em Berlin. Somos 6 nesta casa, cada um na sua cara caixinha de poucos metros quadrados, e nenhum deles sabe que choro de dor aqui dentro.

Ontem operei dois voos longos de Berlim a uma das ilhas Canárias e, no regresso, o meu ouvido direito tapou-se devido à pressão e a um nariz que se foi entupindo com a alergia ao longo do dia. Resultado desastroso. Dor intensa. Lágrimas na aterragem.  

Agora já sou eu a andar sob o céu cinzento da cidade alemã à procura de um hospital. Cheguei aqui nem há 2 meses. O meu alemão é escasso e lá me safo com uma mistura de inglês e a ajuda do tradutor no telemóvel.

Mudei-me para a cidade grande sozinho. E ainda não o sei, mas daqui a uns anos lembrarei como este dia me transformou e me fez ver de frente capacidades minhas que desconhecia.

Sem saber bem como, daí a dois dias já estou a sair de uma clínica com algum alívio, medicação extra forte e um papel que me impedirá de voar pelo menos 7 dias. "Com os ouvidos não se brinca", disse-me o doutor num inglês misturado com alemão.

Agora é Novembro de 2025. É só mais um dia cinzento em Berlim. Ouço no LUX da Rosalía a canção Memória, fado que Carminho escreveu para que ela cantasse em português.

Sem saber bem porquê, veio-me aquele acontecimento ao pensamento.

Recordo esta amálgama de recordações que me parecem agora uma só, como se tivessem existido sempre todas ao mesmo tempo nos lugares que a memória preencheu. 

 

 

 

Só a terapia é terapia

Filipe B., 11.10.25

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Ontem foi o dia da saúde mental e a minha mensagem é sempre a mesma.

Ler não é terapia.

Viajar não é terapia.

Fazer desporto não é terapia.

Escrever não é terapia.

Dançar não é terapia.

Falar com os amigos não é terapia.

A única coisa que é terapia é a terapia.

 

Tudo o resto ajuda. E, pelo amor de deus, leiam muito, viajem mais, façam desporto, escrevam os vossos pensamentos, dancem, desabafem com os amigos. Mas jamais assumam que alguma destas coisas faz o mesmo que terapia.

O fim da humanidade

Filipe B., 05.10.25

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Na noite passada acordei a meio de um pesadelo. Nele via a Sofia Aparício e notícias terríveis sobre a sua prisão em Israel. Primeiro despertei assustado. Depois vi-me espantado. Nunca fui grande seguidor do trabalho da actriz. Que estranho tê-la ali nas minhas preocupações. Demorei a voltar a adormecer e isso deu-me tempo para perceber que não precisava de ser um fã, se dentro de mim há um humano que não conseguiu ficar indiferente aos acontecimentos dos últimos dias. 

Mariana Mortágua, Sofia Aparício e Miguel Duarte foram detidos por militares israelitas e levados como terroristas para uma prisão, onde não receberam nem comida nem água nas primeiras 48h (mensagens arrepiantes escritas à mão após a visita consular provam-nos isto).

Fui ingénuo. Achei que era desta, perante tais atrocidades a quem só queria levar comida e mantimentos a um povo abandonado às mãos de um genocida, que o nosso povo acordaria e esqueceria cores políticas para gritar em uníssono: "INJUSTIÇA!".

Não aconteceu. Abrindo as caixas de comentários das notícias e das próprias redes sociais destes portugueses em cativeiro, os comentários são assustadores, nojentos e desumanos.

Desumanos! É que a maior parte deles são bots (e o melhor é não interagir com eles. Por favor, tentem não responder, porque isso só lhes dá o que eles querem. Eles, quem paga por estes bots de comentários de ódio automatizados). Mas também há pessoas reais por lá e isso é o mais desolador.

Não votei na Mariana nas últimas eleições (já o fiz antes), mas isso alguma vez faria de mim capaz de lhe desejar tanto mal? Alguma vez isso me permitiria assinar uma petição pedindo que a deixem por lá?

A Mariana tem família, amigos e uma irmã que deve estar a sofrer tanto com isto. Vocês já imaginaram se fosse um dos vossos ali preso sem água e comida e sujeito a sabe-se lá que torturas?

Não vos arrepia? Não vos traz lágrimas aos olhos? Não vos perturba o sono?

Onde está a compaixão?

Quando em 2018 visitei Auschwitz, sozinho e em silêncio, a pergunta que mais me assaltava era: "como é que o resto das pessoas assistiu e permitiu que uma atrocidade destas acontecesse?"

Nunca pensei a vir a ter a resposta tão cedo e tão clara.

O fim da empatia é o fim da humanidade. 

 

foto: Yousef Al Zanoun/AP Photo

A carrinha do Vítor

Filipe B., 03.09.25
A carrinha do Vítor levava a Micas para o trabalho e os cachopos para a escola.
E quem viesse pedir boleia.
Se havia ainda lugar, lá levava mais algum cachopo que tinha adormecido e perdido a carreira.
Levava o grande e o pequeno, a carrinha do Vítor.
De madrugada levava a fruta do mercado, que a Mena era a primeira a comprar ao raiar do dia.
Levava o ti Chico e os homens para a caça.
Levava o Manel Capitão, o pão e o vinho para a moita. Levava os panos da azeitona para a charneca. E as bilhas do gás para a Casa do Povo.
Da moita levava flores da espiga para a Mariazinha.
A carrinha do Vítor tinha um autocolante com o número 47 e levava quem o queria ir ver correr.
Levava o avô Chico quando ele deixou de poder conduzir a sua própria carrinha.
A carrinha do Vítor era a carrinha do meu pai e levou as coisas da minha irmã quando ela foi morar para longe.
Levava-me para a estação de comboio, de onde me via partir a soluçar. Mas depois também me levava a casa sempre que eu regressava à mesma estação.
A carrinha do Vítor levava e trazia.
Abria-se a porta e nela entrava o mundo. Porque a carrinha do Vítor era como o coração do dono.
Pequena, mas espaçosa.
Toda a gente lá cabia.

Perder um pai

Filipe B., 11.08.25

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(escrito em Julho num voo para Lisboa)

O meu pai piorou.

Eu também estive/estou doente e sem trabalhar. 

Parece que tudo se juntou assim num caos quase perfeito.

Carrego em mim uma dor e cansaço atípicos. Ninguém, por mais que se prepare, estará alguma vez preparado para a perda de um pai. 

Não é só o corpo que se perde (não é só ausência física)

É a mente. O falar.

As mensagens de bom dia.

"Vais para onde hoje?".

"Diz-me quando chegares a casa".

"Já aterraste?".

"Não dizes nada?".

É a preocupação. Perde-se a preocupação do outro lado e parece que deixa de ser muito importante para onde se vai, se já se chegou, se não se diz nada.

Não queria que o meu pai sofresse. Ele não merecia. Preferia eu sofrer no lugar dele, porque me sinto mais forte e mais capaz.

Às vezes há momentos absolutamente normais, como quando estou a pôr a louça na máquina ou só a passar da porta da cozinha para o quarto, e aperta-me um sufoco tão grande, como mãos violentas ali a espremer-me a garganta, e nem sei se chego a chorar, mas sinto os olhos tão pesados e a arder, o ar a fugir-me do peito, o medo a gritar-me por dentro. Depois o Peter abraça-me sem eu dar por nada e vejo-me já só abraçado nele, as mãos leves a amaciar-me o cabelo, e parece que tudo passou, que daí a nada me liga o pai a comer um prato de sopa à hora do telejornal.

Mas não liga.

Eu bem chamo por isso, mas a chamada não vem.

E o meu pai ainda cá está. Só que perder um pai não é só perder a presença. É aceitar o que se vai perdendo. Ou melhor, fingir que se vai aceitando, fugindo daquele aperto como quem foge da cruz.

E ela cada vez maior, cada vez mais erguida ao alto, a cruz, a sua sombra fria a ocupar mais e mais espaço. A cruz/consciência cada vez mais presente.

"Paizinho, paizinho", repito tantas vezes em voz baixa só para mim, como se o soprar desta palavra pudesse destapar por aí algum milagre escondido na terra que me ampara os pés.

"Paizinho, paizinho".

 

O senhor Rui

Filipe B., 17.07.25

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Por curiosidade.

Vocês sabiam de quem trata a história deste livro antes de o ler?

Eu tenho por hábito não ler sinopses ou comunicados ou mesmo entrevistas extensas dos autores antes de ler a obra. Gosto de ir a seco.

Só li este "Almoço de Domingo" agora e não fazia ideia nenhuma do que me esperava.

Li-o porque é José Luís Peixoto, um dos meus autores favoritos.

É engraçado que comecei a desconfiar de quem seria este "senhor Rui" ao fim de algumas páginas.

Lida a sinopse depois de terminado o livro, acredito que talvez tenha sido esta a intenção do autor. Que descobríssemos o personagem a seu tempo, sem um julgamento prévio. Não há qualquer menção na sinopse nem na capa. Fiquei até a pensar: será que os editores de José Luís Peixoto o leram inicialmente também sem saber o que os esperava?

E ficou-me esta curiosidade. Vocês já o leram sabendo ao que iam ou, tal como eu, foram surpreendidos quando a revelação daquele grande nome (o da empresa) acontece como se nada fosse?

É uma obra-prima da narrativa, já agora. 

Por que é tão caro ler em Portugal?

Filipe B., 05.02.25

Livros que trouxe de Londres.

O Wicked foi um presente de aniversário. Os outros 3 comprei. O do Superman é um clássico e uma preparação para o filme do James Gunn.

O The Extinction of Irena Rey não conhecia (nem à autora) mas estava numa “curated book selection " para literatura contemporânea que o staff da livraria preparou e deixou-me curioso. Daí ser tão importante ir às livrarias. O The Anxious Generation é porque quero compreender a Gen Z e não julgá-la.

Outra coisa. O preço dos livros. Por que é que em Portugal pagamos sempre mais para ler? Cada um aqui custou 9,99£ (uns 12eur). Sem descontos. É o preço base. O The Anxious Generation em Portugal custa 24,90eur! Sei que há custos de tradução envolvidos, mas não é só em Londres que vejo esta diferença. Aqui em Berlin também compro os livros sempre mais baratos e a maioria são de autores estrangeiros traduzidos.

Assim não é fácil pedir que as pessoas em Portugal leiam mais. Ou acabarão todas por comprar mais em inglês, como já está a acontecer com esta última geração de leitores que já domina o inglês como segunda língua. Uma pena.

Autores portugueses e que escrevem em português continuam a ser os meus favoritos, mas sinto que a maioria deixará de os ler se conseguir acesso mais rápido e económico a livros em inglês. Uma pena, sim, mas não posso julgar.